O relógio e o amor no outono da vida

"Há uma coisa que não se perdoa aos velhos: que eles possam amar com o mesmo amor dos moços"

Por Flávio Lauria*

Publicado em: 13/10/2025 às 11:30 | Atualizado em: 13/10/2025 às 11:30

Hoje o termo etarismo é usado como preconceito, mas a verdade é que homens e mulheres que têm os rostos com os sulcos marcados pelo tempo, os cabelos acinzentados, mãos trêmulas e passos lentos/inseguros, não são mais denominados de velhos, optou-se pelo termo terceira idade.

Seria um preconceito contra o preconceito?

Como se apenas o fato de criar-se um nome, fosse capaz de proporcionar maior respeitabilidade a eles.

Como se a mudança do vocábulo, desse-lhes mais dignidade.

Como se facilitasse a travessia da maturidade para a velhice.

Entretanto, tornou-os mais felizes?  

Ouçam! A velhice está batendo à nossa porta. Não adianta fingir que não a escutamos.

Mesmo no Brasil, houve um aumento da longevidade e a tendência é que o contingente de velhos cresça significativamente, nos próximos anos. Portanto, é mister que haja uma preocupação séria com a qualidade de vida dos idosos.

Eles (entre os quais me incluo) que construíram uma família, com a parca aposentadoria que recebem, geralmente, vão morar com um dos filhos (o que não é meu caso). Esse arranjo raras vezes dá certo.

Ainda que sejam saudáveis, eles não são invisíveis, têm suas manias (por que não?) e carecem de afeto. Acolhê-los não quer dizer dar-lhes cama e comida.

  • Segundo Rubem Alves: …o pão é pouco: a vida precisa também de alegrias e carinhos.  

Sinto-me seduzido pela ilustração da capa do livro “Tempus fugitivos”, de Rubem Alves: um velho e grande relógio, com seus majestosos algarismos romanos, pêndulo e carrilhão.

O escritor só conseguiu entender depois a mensagem daquele relógio, que vinha a cada quarto de hora e que tanto o assustara durante as noites em que dormira na casa do avô.

Era o recado do tempo que fugia.

O tempo já havia escoado para os seus antepassados, entretanto, era como se o velho relógio, espectador de tantas cenas familiares, soubesse que o seu próprio tempo logo também estaria esgotado; então, escolhera o garoto para repassar-lhe os segredos que conhecia.  

É comum assistirmos a entrevistas na TV em que os convidados debatem a qualidade de vida do idoso.

Falam da importância de uma alimentação balanceada (leia-se insossa), do pecado de usufruir uma vida sedentária (a caminhada é a grande descoberta do milênio), dos clubes sofisticados que já funcionam a todo vapor, com atividades voltadas para a terceira idade (e que custam uma fortuna) e da memória que deve ser exercitada (apesar das dolorosas recordações que vêm à tona).

Mas, quase nunca se destaca a importância de a família dedicar um tempo para conversar com eles (deve ser por isso que as agendas dos psiquiatras vivem lotadas).

Repetem histórias? E daí? Se meu pai estivesse vivo e eu pudesse realizar um único desejo para este novo ano, certamente, gostaria que ele me contasse, pela milionésima vez, que quando nasci decretaram feriado lá em casa em plena quarta-feira.  

Grandes figuras foram flechadas por cupido já na terceira idade. O poeta inglês T.S. Elliot e sua musa Valerie descobriram o amor em plena velhice. Ele apaixonou-se aos 68 anos; aos 70 afirmou:

“O amor retribuído sempre rejuvenesce”.

Ciente de que os jovens não compreendiam o amor no outono da vida, o poeta declarou:

“Há uma coisa que não se perdoa aos velhos: que eles possam amar com o mesmo amor dos moços”.  

Voltando ao relógio, o autor não aceita impassível o escoar do tempo.

Rebela-se: “O amor tem este poder mágico de fazer o tempo correr ao contrário. O que envelhece não é o tempo. É a rotina, o enfado…”.

Critica a postura de uma sociedade moralista:

“O preço de serem amados por seus filhos e netos é a renúncia de seus sonhos de amor”.  

Os velhos lidam com a proibição. A maior parte das famílias é a primeira a desrespeitar a liberdade amorosa de seus idosos, como se a redescoberta para a sexualidade lhes tirasse a dignidade.

É preferível vê-los solitários, assexuados, tristes, até murcharem e morrerem.  

Adélia Prado, a quem Rubem Alves, sagazmente, dedica o livro “Tempus fugitivos” (O tempo voa), na tentativa de aceitar a passagem do tempo, diz de forma descontraída, em seu poema “Parâmetro”:

  • Deus é mais belo do que eu/ e não é jovem/ Isto sim é que é consolo. Quem sou eu para discordar de Adélia.

*O autor é mestre e doutor em administração pública.

Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil