A parintinização do carnaval
O Carnaval de 2026 consolida a "parintinização" dos desfiles cariocas e paulistas através de apresentações em 360º e novas métricas de julgamento.
Por Dassuem Nogueira*
Publicado em: 23/02/2026 às 15:19 | Atualizado em: 23/02/2026 às 15:20
Por Dassuem Nogueira*
Uma das maiores tensões do boi bumbá de Parintins no início do processo de construção do formato de espetáculo de arena, no final de 1980, era a comparação com o carnaval do Rio de Janeiro.
O carnaval carioca foi a primeira festa popular a ter projeção nacional, muito incentivada pelo financiamento do jogo do bicho. E, pelo fato, de acontecer em um centro econômico e cultural antigo.
Alguns elementos como a rainha da batucada/marujada, item análogo ao de rainha da bateria, não vingaram. Outros, como porta estandarte, análogo ao de porta-bandeira, permaneceram.
A gramática do espetáculo é um processo que nunca finaliza.
Não é de hoje que a tecnologia do festival de Parintins foi absorvida pelo carnaval do Rio de Janeiro e, também, de São Paulo.
Mas, em 2026, pode-se observar que o formato do festival de Parintins foi definitivamente incorporado por essas manifestações.
Ponto de vista
Mudanças nos critérios de julgamento do carnaval carioca e paulistano demonstram a influência da arte parintinense.
Os espetáculos de competição são feitos para os julgadores, assim há preocupação com seus pontos de vista.
Até o ano passado, os julgadores do carnaval carioca se mantinham em um único lado da passarela. Por isso, itens de chão como mestre sala e porta bandeira e comissão de frente se apresentavam apenas para um dos lados.
360
Em 2026, houve um aumento de julgadores, que passaram a ser 54. Porém, após sorteio, somente as notas de 36 foram lidas.
Os julgadores se posicionaram em quatro módulos. Nas extremidades, ficaram em cabines espelhadas.
Assim, ampliaram seu campo de visão em relação à totalidade do desfile e provocaram que as apresentações fossem pensadas em 360º, como no formato de arena.
Comissão de frente
As comissões de frente, especialmente, precisaram se reinventar. Há um tempo para que executem sua coreografia de competição em frente às cabines de julgadores, que deve comportar a harmonia da escola.
Com as cabines de jurados espelhadas, elas precisaram fazer apresentações para os dois lados ao mesmo tempo.
Muitas escolas de samba utilizaram como recurso módulos que serviam como pequenas arenas, o que otimizou o tempo.
Movimento
O formato de arena proporcionou ao festival de Parintins que seus artistas desenvolvessem alegorias em módulos e que se especializassem em movimentos de criaturas fantásticas, agigantadas.
O formato do carnaval das escolas de samba é de desfile, por isso suas alegorias são carros alegóricos, que andam em uma avenida.
Na virada do milênio, houve a introdução de movimentos nos carros alegóricos de Rio de Janeiro e São Paulo (e outras capitais), produzida pelos artistas parintinenses.
Em 2026, o movimento nos carros alegóricos passou a ser um sub quesito de julgamento em alegoria no carnaval de São Paulo.
Patrocinadores
Uma das expressões da rivalidade visceral entre Garantido e Caprichoso é a mudança de cor das logo marcas.
A inusitada lata azul da coca-cola é um exemplo desse movimento dos patrocinadores do festival para agradar as duas torcidas.
A personalização de logomarcas, identidade visual primordial para o comércio, virou uma expressão de validação da rivalidade dos bois bumbás.
Não é possível afirmar que exista rivalidade entre as escolas de samba de Rio de Janeiro e São Paulo do mesmo modo que a existente entre os bois parintinenses.
Mas em 2026, a cerveja Brahma, patrocinadora oficial do carnaval carioca, fez identidades visuais personalizadas para cada escola de samba, que apareceram no início do desfile durante a transmissão televisiva.
Confluência
Assim, é possível dizer que as festas populares midiáticas têm como característica confluírem entre si, permitindo que as culturas dialoguem permanentemente.
*A autora é doutora em antropologia.
Foto: reprodução
