Quando Campos Neto virará réu pelo maior crime financeiro do Brasil?

De acordo com o articulista, responsabilizar apenas os diretores que usam tornozeleira é punir os executores e poupar o mentor da omissão

Quando Campos Neto virará réu pelo maior crime financeiro do Brasil?

Por Plínio César Coelho*

Publicado em: 09/04/2026 às 07:02 | Atualizado em: 09/04/2026 às 09:13

​A história do banco Master não é a de um sucesso meteórico, mas a de uma fraude gestada sob as barbas do órgão regulador.

Originalmente fundado como banco Máxima (com um histórico de fragilidades que remonta a 1970), a instituição foi “metamorfoseada” em banco Master em 2018, após a entrada do empresário Daniel Vorcaro.

Foi a partir daí, sob a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central (iniciada em 2019), que o banco apresentou uma evolução patrimonial que desafia qualquer lógica econômica saudável.

​O “ovo da serpente” no Banco Central

​Enquanto o Master expandia seu império — captando recursos com taxas acima do mercado e inflando ativos — os alertas já soavam.

Não foram apenas “rumores”: a Febraban, instituições financeiras concorrentes e a própria Polícia Federal emitiram avisos claros sobre a insustentabilidade e as irregularidades nas operações do grupo.

​A pergunta central é: por que Campos Neto ignorou esses alertas?

A resposta pode estar na “Turma”, o grupo de WhatsApp descoberto pela PF onde o crime era coordenado. Dois nomes centrais da gestão de Campos Neto hoje carregam o símbolo da ignomínia:

✓ ​Paulo Sérgio Neves de Souza: ex-diretor de fiscalização do BC (2019-2023), acusado de ser “consultor informal” de Vorcaro e de ter assinado a autorização que permitiu a expansão do Master.

✓ ​Belline Santana: também vindo da cúpula do BC, ambos hoje monitorados por tornozeleira eletrônica após a deflagração da operação Compliance Zero.

A intervenção que chegou tarde demais

​A festa só começou a acabar quando Gabriel Galípolo, assumindo uma postura de rigor que faltou à presidência da casa, proibiu a compra do BRB (Banco de Brasília) pelo Master em setembro de 2025.

Galípolo viu o que Campos Neto fingiu não ver: um rombo que beira os R$ 17 bilhões e conexões perigosas com lavagem de dinheiro.

Em 18 de novembro de 2025, a liquidação extrajudicial foi finalmente decretada, mas o estrago — e o prejuízo ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — já estava feito.

Conclusão: A Omertà da Faria Lima

​Responsabilizar apenas os diretores que usam tornozeleira é punir os executores e poupar o mentor da omissão. Roberto Campos Neto não apenas “virou as costas”; ele presidiu o Banco Central enquanto o “ovo da serpente” era chocado.

​Se a independência do Banco Central serve para proteger gestores que ignoram alertas da Polícia Federal para favorecer esquemas de corrupção sistêmica, então o sistema faliu. O banco dos réus é o lugar natural para quem detinha o poder de fiscalizar e escolheu o silêncio.

*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil