MST vai plantar maconha medicinal em cooperativa de agricultores
Movimento ligado à esquerda articula cultivo da cannabis para fins terapêuticos, em meio a brechas judiciais e à falta de regulamentação federal.
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 09/02/2026 às 09:31 | Atualizado em: 09/02/2026 às 09:31
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) anunciou que pretende avançar na criação de uma cooperativa de agricultores voltada ao cultivo de maconha medicinal, inserindo o movimento diretamente em um dos debates mais sensíveis da política nacional, que envolve saúde pública, drogas, regulação sanitária e disputa ideológica.
A informação foi revelada por reportagens de veículos como Poder360 e Brasil de Fato, que relataram a intenção do MST de estruturar uma cadeia produtiva da cannabis destinada exclusivamente a fins medicinais, por meio de associações e cooperativas ligadas à agricultura familiar.
Segundo essas publicações, o movimento já dialoga com associações de pacientes e avalia experiências embrionárias em alguns estados.
A iniciativa ocorre em um momento de maior abertura judicial sobre o tema, mas ainda marcado por lacunas regulatórias e forte resistência política, especialmente de setores conservadores do Congresso Nacional.
Entre decisões judiciais e ausência de regra clara
O avanço do MST sobre esse campo se apoia em decisões recentes do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que passaram a reconhecer a possibilidade de autorizações específicas para cultivo de cannabis com fins medicinais ou científicos, desde que observados critérios técnicos e controle rigoroso.
Ao mesmo tempo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda não concluiu um marco regulatório definitivo que discipline o plantio da planta em território nacional, o que tem levado associações, pacientes e agora movimentos sociais a recorrerem ao Judiciário para garantir o direito à produção.
Esse vácuo normativo tem sido explorado politicamente. Para a direita, trata-se de uma abertura perigosa e mal fiscalizada. Para a esquerda e movimentos sociais, é uma resposta à omissão do Estado diante do alto custo dos medicamentos importados à base de cannabis.
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Reação conservadora e disputa ideológica
A entrada do MST no debate elevou o tom da controvérsia. Parlamentares e lideranças conservadoras veem na proposta mais um passo do movimento em direção a pautas que, historicamente, enfrentam resistência da direita, como a flexibilização do controle sobre drogas e a ampliação do papel de organizações sociais em áreas sensíveis.
Defensores do projeto, por outro lado, sustentam que a produção cooperativa de maconha medicinal poderia reduzir custos para pacientes, ampliar o acesso a tratamentos e gerar renda no campo, desde que submetida a regras sanitárias e fiscalização estatal.
Mesmo sem autorização definitiva, o anúncio da iniciativa já cumpre um papel político relevante: desloca o debate sobre cannabis medicinal do campo técnico para o centro da disputa ideológica nacional, com o MST assumindo protagonismo em um tema historicamente explorado por seus adversários.
O que diz a lei hoje sobre maconha medicinal no Brasil
– O cultivo de maconha continua proibido pela Lei de Drogas (11.343/2006).
– Exceções vêm sendo autorizadas caso a caso por decisões judiciais, sobretudo para fins medicinais e científicos.
– O STJ reconhece a possibilidade de autorizações específicas, desde que haja controle e finalidade terapêutica comprovada.
– A Anvisa autoriza a importação e a comercialização de medicamentos à base de cannabis, mas ainda não regulamentou de forma ampla o cultivo no país.
– Associações e entidades recorrem ao Judiciário para obter salvo-condutos e autorizações individuais.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
