Apoio da direita à PEC da jornada 6×1 mira a eleição de 2026
Apoio massivo da oposição à PEC do fim da escala 6x1 é impulsionado pelo forte apelo eleitoral para 2026.
Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília
Publicado em: 28/05/2026 às 15:57 | Atualizado em: 28/05/2026 às 15:57
A aprovação, em dois turnos, da PEC 221/2019 na Câmara dos Deputados, na noite desta quarta-feira (27/5), consolidou um resultado político improvável até poucos meses atrás:
Partidos da oposição bolsonarista votaram em massa a favor da redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas e do fim da escala 6×1.
No primeiro turno, a proposta recebeu 472 votos favoráveis e apenas 22 contrários. No segundo turno, foram 461 votos a favor e 19 contra.
Esse placar expressivo chamou atenção principalmente pelo comportamento de partidos como o PL (Partido Liberal), principal legenda de oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Para se ter uma ideia, dos 97 deputados do PL, 83 deputados votaram a favor e 11 deputados votaram contra a PEC do fim da escala 6×1. Os parlamentares restantes constaram como ausentes ou não registraram voto durante a sessão.
Mesmo criticando o Palácio do Planalto em outras pautas econômicas, a maior parte da bancada liberal-conservadora apoiou a proposta trabalhista.
Na prática, a votação produziu um raro alinhamento entre governo, centro e oposição em torno de uma pauta de forte apelo popular.
Desgaste eleitoral
Nos bastidores, parlamentares e cientistas políticos avaliam que o apoio amplo da oposição tem relação direta com o impacto eleitoral do tema.
A discussão sobre o fim da escala 6×1 ganhou enorme repercussão nas redes sociais, desde 2025, impulsionada por sindicatos, movimentos trabalhistas e pela mobilização da deputada federal Erika Hilton, autora da PEC 8/2025, que acabou apensada à PEC 221/2019.
Desse modo, a percepção entre deputados da oposição era de que votar contra a proposta poderia gerar desgaste junto ao eleitorado trabalhador, especialmente entre jovens, comerciários e trabalhadores de serviços, segmentos fortemente atingidos pela escala de seis dias consecutivos de trabalho.
Além disso, integrantes do centrão e da direita passaram a enxergar o tema como uma pauta social difícil de ser enfrentada publicamente em ano pré-eleitoral.
Mesmo setores empresariais que fazem críticas à redução da jornada admitiram que o debate possui forte pressão social e eleitoral. Representantes patronais chegaram a defender que a discussão fosse empurrada para depois das eleições.
Amazonas 100% favorável
No Amazonas, todos os oito deputados federais votaram favoravelmente à PEC. O dado ganhou peso político porque dois dos principais nomes da direita bolsonarista no estado [Alberto Neto e Fausto Santos Jr.] acompanharam o texto favorável ao fim da escala 6×1.
O movimento dos parlamentares do Amazonas – dois da direta e seis do centrão – foi interpretado como mais um sinal de que a pauta ultrapassou as fronteiras ideológicas tradicionais e passou a ser tratada como tema sensível para a opinião pública.
Senado será mais lento
Mas, apesar da vitória esmagadora na Câmara, a tendência é de que a tramitação no Senado seja mais lenta e complexa. Para aprovar uma PEC, são necessários 49 votos favoráveis em dois turnos no plenário da Casa.
Isso porque o cenário eleitoral é diferente do da Câmara. Em 2026, apenas um terço do Senado (27 parlamentares) estará fora da disputa eleitoral. Os outros 54 senadores precisarão buscar votos para renovar seus mandatos.
Esse número é superior aos 49 votos necessários para aprovar a PEC, o que faz parlamentares governistas acreditarem que a pressão popular poderá influenciar novamente o comportamento do Congresso.
Ao mesmo tempo, o Senado possui perfil mais conservador que a Câmara, especialmente nas bancadas do Norte, Centro-Oeste e Sul.
Bancada AM no Senado
No Amazonas, a expectativa é de que os senadores Omar Aziz (PSD) e Eduardo Braga (MDB) votem favoravelmente à proposta, principalmente pelo alinhamento político ao governo Lula.
Já o senador Plínio Valério (PSDB) surge como principal incógnita da bancada amazonense. Ele já assinou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC), no Senado, que permite a negociação de carga horária e horários flexíveis entre empresas e funcionários.
A iniciativa faz parte de um contramovimento de oposição ao texto aprovado pela Câmara dos Deputados.
Interesses eleitoreiros
Nos bastidores, interlocutores do Senado avaliam que Valério pode defender alterações no texto ou uma transição mais longa para a implementação da redução da jornada.
Em entrevista ao canal UOL, o senador Plínio Valério expressou sua visão cética sobre a rápida tramitação da proposta que visa encerrar a escala de trabalho 6×1.
O parlamentar argumenta que a agilidade observada na Câmara dos Deputados é impulsionada por interesses eleitorais e estratégias políticas do governo atual.
Ele traça um paralelo com outras pautas econômicas (cita o Pix, por exemplo) travadas, sugerindo que o projeto não encontrará o mesmo caminho facilitado no Senado.
Segundo Valério, a complexidade do tema exigirá um tempo de análise superior ao previsto pelos defensores da medida. Portanto, a expectativa é de que a proposta enfrente maior resistência e lentidão legislativa no Senado.
“Não vejo com essa facilidade, com essa democracia toda que os deputados alegam ter tido. É eleitoral. O PT e o governo estão querendo encurralar todo mundo. A minha impressão é que no Senado vai demorar um pouco”, declarou o senador do Amazonas.
Votos no Norte
Levantamento preliminar entre lideranças partidárias e posicionamentos recentes indica o seguinte cenário provável na região Norte: dois dos três senadores do Amazonas são favoráveis à proposta.
No Pará, parte da bancada também vai apoiar a PEC do fim da escala 6×1. No Amapá, do presidente Davi Alcolumbre (União), a tendência é ser favorável devido à proximidade de setores governistas.
Já os senadores de Rondônia, Acre, Roraima, Tocantins uma parte do Pará, a tendência é ser contrários ou impor maior resistência, apoiando a PEC da oposição.
Foco de resistência
O principal foco de resistência deverá vir do argumento econômico, especialmente sobre impacto no comércio, agronegócio e pequenas empresas.
Ainda assim, o resultado da Câmara mostrou que o peso eleitoral do tema pode reduzir a disposição de parlamentares em votar contra uma proposta com grande aceitação popular.
Próximos passos
A PEC seguirá agora para a Comissão de Constituição e Justiça do Senado antes de eventual criação de comissão especial e votação em dois turnos no plenário.
O presidente da Casa, Davi Alcolumbre, deve contrariar o governo e seguir o rito completo de tramitação da proposta. Isso significa que não há garantia de que a PEC do fim da escala 6×1 seja votada e promulgada até as eleições de outubro.
Foto: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados
