Caprichoso é bonito porque é preto!
Dassuem Nogueira critica associações preconceituosas entre a cor preta e a feiura no boi-bumbá e afirma que o Caprichoso é bonito justamente por ser preto.
Por Dassuem Nogueira*
Publicado em: 06/06/2026 às 06:00 | Atualizado em: 06/06/2026 às 09:01
No Planeta Boi, realizado em Manaus, dia 30/05, assistimos às performances dos itens oficiais em uma produção grandiosa.
Os eventos pré-festival funcionam como “performances amistosas”: não valem pontos para a competição, mas permitem aos torcedores avaliarem o desempenho dos itens. Os versos dos amos seguem levando-nos a refletir sobre tradição e preconceito.
Tradição e preconceito
O verso do amo do boi Caprichoso afirmando que os torcedores do boi contrário podiam roubar carteiras, expressa o preconceito de classe, que associa a pobreza a todo o espectro da violência. Não me deterei no verso do amo azul, pois já foi competentemente analisado por Aldenor Ferreira, no artigo Verso desconcertante na noite do Caprichoso.
Me atentarei ao verso do amo do boi Garantido que insiste em associar o boi Caprichoso a animais considerados feios como o morcego, o urubu e o bodó. Este último, embora muito apreciado pelos parintinenses, possui estética pouco valorizada. Algumas vezes, como no caso do Planeta Boi, ao Satanás, pelos chifres.
“O coisa ruim”
Interessante notar que os dois bois-bumbás possuem chifres, característica da representação histórica do Satanás. Um dos motivos pelos quais os segmentos religiosos mais literais associam ambos a manifestações demoníacas.
Observa-se que entre os animais vistos como feios, os que costumam ser associados ao boi Caprichoso são apenas os de cor preta. Será que a associação entre cor preta e feiura se limita apenas ao veludo que cobre o boi Caprichoso?
Em nenhum momento de seu verso o amo menciona diretamente a cor preta. Em vez disso, incorpora um novo repertório de associações, como “catita de padaria” e morcego, além dos mais típicos, como urubu e bodó. Possivelmente, pretende, com isso, deter-se na forma e não na cor. E, desse modo, contornar o preconceito.
O indefensável
Ocorre que a associação entre cor preta e feiura não depende das intenções do amo, mas de um racismo estrutural historicamente estabelecido.
A defesa contra os apontamentos sobre o conteúdo racista sempre argumenta que se trata de um boi de pano, e não de uma pessoa. Portanto, não haveria cabimento essa interpretação. Mas podemos perguntar: como se sente uma pessoa preta ouvindo tais associações?
O amo do boi Garantido adotou como identidade o rótulo de “o insuportável”, por incomodar os contrários com seus versos. Contudo, especificamente nesse caso, o repertório de ofensas à suposta feiura do Caprichoso não o torna “insuportável”; torna-o indefensável. O problema ganha peso ainda maior pelo fato de o amo ser um homem branco.
A raça
Se falamos de raça, falemos também da raça do boi Caprichoso, que, possivelmente, é a Guzerá, de origem indiana, introduzida no Brasil no século XIX.
Trata-se de um gado zebuíno, com porte grande e robusto, pelagem que varia do cinza claro ao escuro, com chifres grandes em formato de lira e corcova.
A raça é utilizada tanto para a produção de carne quanto de leite. Entre suas principais características estão a resistência ao calor e à seca, boa fertilidade, longevidade e alta capacidade de adaptação a ambientes difíceis, o que a torna muito valorizada em sistemas de criação extensivos e em cruzamentos para melhorar rebanhos no país.
Black is beautiful
O guzerá é um boizão, grande, fértil, resistente, preto e bonito!
Nesse sentido, o Caprichoso não é feio porque é preto. O Caprichoso é bonito justamente por ser preto!
É a sua cor negra que lhe confere a beleza do céu à noite, a retintez da gente preta, dos cabelos negros da gente indígena, da mansidão do peixe-boi, da infinitude do universo.
Qual o limite do verso?
Muito se fala sobre o limite do humor. Mas qual o limite do verso? Existem limites éticos e legais para aquilo que se diz publicamente. No boi-bumbá de Parintins, inclusive, existe um limite estratégico que impede que versos preconceituosos dos amos sejam apresentados na arena.
Observem que, atualmente, quase nada desse tipo se ouve no momento da competição, pois os amos sabem que podem perder pontos e/ou ganhar antipatia dos jurados que estão alheios à dita “tradição” de caráter classista e racista.
Portanto, amos e associações folclóricas demonstram ter consciência de suas práticas. Tal postura é questionável e lamentável, mas não é crime. Realmente, o boi Caprichoso não é uma pessoa.
Contudo, a associação entre feiura e a cor preta reforça uma estrutura perversa, a dissimulação do preconceito não a torna menos real, apenas mais resistente.
Por isso, afirmar que Caprichoso é bonito porque é preto também é uma forma de enfrentar simbolicamente esse preconceito.
A autora é antropóloga.*
Arte: Gilmal.
