ESPECIAL BNC | Um décimo nunca nasce por acaso

Caderno oficial de justificativas revela como os jurados transformam técnica, emoção e percepção artística em notas na disputa entre Caprichoso e Garantido

Décimo

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 04/07/2026 às 12:08 | Atualizado em: 04/07/2026 às 12:08

A planilha também conta histórias | Uma série especial do BNC Amazonas que mergulha nas notas oficiais do 59º Festival Folclórico de Parintins para mostrar como os números ajudam a explicar a emoção vivida na arena.


Quem acompanha a apuração do Festival Folclórico de Parintins costuma enxergar apenas a nota anunciada pela comissão julgadora: 10, 9,9 ou 9,8. O que permanece desconhecido para a maioria do público é o caminho percorrido até cada um desses números.

O caderno oficial de justificativas dos jurados do 59º Festival Folclórico de Parintins mostra que cada décimo atribuído a um item nasce de uma análise técnica registrada por escrito.

Afinação, dicção, criatividade, ritmo, evolução, acabamento, interpretação e fidelidade ao regulamento aparecem entre os aspectos observados pelos avaliadores antes da definição da pontuação.

Pouco explorado na cobertura jornalística do festival, o documento permite compreender como um espetáculo carregado de emoção é traduzido em critérios objetivos de julgamento.

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Antes da nota existe uma análise

A leitura das justificativas demonstra que os jurados não registram apenas a nota atribuída a cada item.

Eles explicam por que chegaram àquela avaliação.

Quando identificam perda de afinação, dificuldade de dicção, repetição melódica, desencontro rítmico, limitações técnicas ou falhas de evolução, essas observações aparecem descritas como fundamento para a redução da pontuação.

Da mesma forma, excelência artística, domínio técnico, clareza na execução, comunicação com o público e fidelidade ao tema também são destacados para justificar notas máximas.

A nota, portanto, representa apenas o resultado final de um processo de observação muito mais amplo.

Os levantadores Patrick Araújo, do Caprichoso, e David Assayag, do Garantido, em duelo apertado

O que um jurado escuta

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No duelo entre os levantadores de toadas Patrick Araújo e David Assayag, um dos confrontos mais aguardados do festival, as justificativas revelam como pequenos detalhes podem resultar em descontos.

Em uma das avaliações referentes ao levantador do Garantido, David Assayag, o jurado aponta aspectos relacionados à afinação e à inteligibilidade da interpretação como fundamento para a perda de um décimo.

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Já em relação a Patrick, o levantador do Caprichoso, outro registro menciona pequenos deslizes de afinação em trecho específico da apresentação.

As observações demonstram que o desconto não decorre de impressões subjetivas ou genéricas, mas da percepção de elementos técnicos identificados durante a execução.

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A poesia também recebe avaliação técnica

O mesmo ocorre com o item amo do boi.

As justificativas analisam criatividade, construção melódica, emissão vocal, afinação, clareza da dicção e comunicação com o público.

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Em uma das avaliações, o jurado destaca positivamente a variedade melódica, a qualidade da emissão vocal e a clareza da interpretação.

Em outra, fundamenta o desconto apontando repetição melódica, limitações técnicas da emissão vocal, problemas de afinação e dificuldades de dicção.

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O documento deixa claro que a rivalidade entre os amos ultrapassa o improviso e também passa pelo olhar técnico da comissão julgadora.

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O ouvido do jurado vai além do ouvido do torcedor

As justificativas mostram ainda que aspectos muitas vezes imperceptíveis para quem acompanha o espetáculo das arquibancadas podem ser determinantes para a nota.

Na avaliação da Marujada de Guerra e da Batucada, por exemplo, aparecem observações relacionadas à precisão dos naipes, à cadência e à execução rítmica.

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Já nas toadas, os jurados registram análises sobre construção melódica, harmonia, arranjo, letra e aderência da composição ao tema desenvolvido na arena.

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São detalhes que ajudam a explicar por que diferenças aparentemente pequenas continuam alimentando debates entre torcedores muito tempo depois da apuração.

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Cada jurado escreve de um jeito

Outro aspecto curioso revelado pelo documento está na forma como cada avaliador constrói sua fundamentação.

Há justificativas objetivas e diretas.

Outras apresentam linguagem técnica própria da música, da dança, do teatro e das artes cênicas, evidenciando a formação profissional de cada jurado.

Embora todos assistam ao mesmo espetáculo, cada especialista registra seu olhar a partir da própria experiência, sempre limitado pelos critérios previstos no regulamento do festival.

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Muito além da planilha

Ao divulgar apenas as notas, a planilha resume um processo extremamente complexo.

As justificativas revelam o percurso completo até cada número.

Concorde ou não com determinada avaliação, o torcedor passa a compreender que um décimo não nasce de forma aleatória.

Ele é resultado de uma percepção técnica registrada oficialmente, assinada pelo jurado e incorporada ao processo de julgamento.

Mais do que explicar descontos, o documento aproxima o público da lógica da comissão julgadora e ajuda a compreender como arte, emoção e técnica convivem dentro da mesma arena.

Antes de virar um número na planilha, cada nota foi um olhar.


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O covarde 1 décimo, senhor jurado!

No próximo capitulo…

Os nove olhares do festival

No próximo capítulo da série “A planilha também conta histórias”, o BNC Amazonas mostrará como os diferentes perfis dos jurados influenciaram suas leituras do espetáculo e por que especialistas podem assistir à mesma apresentação, destacar aspectos distintos e, ainda assim, construir coletivamente um resultado técnico consistente.

Foto: reprodução/YouTube