Não é petróleo, o alvo de Trump é controle regional

A ofensiva dos EUA contra a Venezuela revela uma estratégia geopolítica para conter China, Rússia e o avanço do Brasil, em disputa que vai muito além do petróleo.

Por Thomaz Antônio Barbosa*

Publicado em: 06/01/2026 às 12:22 | Atualizado em: 06/01/2026 às 12:22

Não é necessariamente por causa do petróleo a invasão militarizada da Venezuela por Donald Trump e a prisão de Maduro é um pano de fundo para a ocupação territorial da América Latina, frear a influência sino-russa no continente e marcar ombro a ombro o crescimento do Brasil na região.

O resto é testar poderio militar e, de lambuja, fazer caixa.

Com uma produção chegando a mais de 13 milhões de barris de petróleo por dia, em 2025, os Estados Unidos, autossuficientes em relação a esse combustível, com reservas que podem cobrir, com base no consumo atual, até dez anos da demanda sem precisar de importação e, ainda, com a utilização de outros recursos não convencionais como o xisto, por exemplo, esse número pode atingir até 227 anos de consumo.

Por esse cenário, Nicolás Maduro e o chavismo teriam vida longa. Todavia, a aproximação do Brasil, China e Rússia em parcerias diplomáticas e comerciais, sobretudo, por meio do Brics, afasta Washington do controle regional.

Com o fracasso dos tarifaços e das sanções distribuídas amiúde mundo a fora e no Brasil, ocasionando a exposição da situação de fragilidade que se encontra a economia americana e o governo do país, restava a Donald Trump se utilizar do único mecanismo capaz de sustentar um império em queda, o poderio militar, para salvá-lo ou acelerar ainda mais o seu declínio.

Apoderando-se de uma brecha na agenda global que desde o final da guerra fria se voltou cegamente para as questões climáticas e não mais outra coisa, Donald Trump encontra no tráfico de drogas um discurso com poder de polaridade em solo, capaz de justificar – apesar de não convencer – o uso do aparelho militar.

O mundo veio abaixo e os apaixonados pelo óbvio alarmaram “é o petróleo!!!”.

Ledo engano, o controle regional é o alvo, o combustível fóssil compõe apenas o mix de produtos.

Com mais de 50% das reservas de lítio, minério crucial na transição energética, da suja para a limpa, e na produção de baterias recarregáveis para veículos automotores, celulares e notebooks, a América Latina se torna um continente agradável e estratégico; o Brasil com 23% das reservas mundiais de terras raras, segundo lugar no mundo, aliado da China, o primeiro lugar, com algo entre 60 e 70% do restante, se transformam em uma parceria perigosa e ameaçadora dentro do hemisfério.

A título de informação básica e sem querer me alongar nessa conversa, as terras raras são utilizadas em tecnologia de ponta, para fabricação de imãs para carros elétricos, turbinas eólicas, TV, lâmpadas de LED e telas de celulares, além de equipamentos hospitalares de ressonância magnética, de radares e aviões de caça.

Acrescente a isso ouro, diamante, esmeralda, recursos hídricos, floresta em pé, mercado consumidor, e ainda como base no potencial petrolífero americano, veremos que os hidrocarbonetos da Venezuela, em um contexto regional, são apenas a entrada do banquete, o cardápio é bem mais sofisticado.

Todavia, não é de agora a cisma, a pacificada América Latina, sempre controlada a distância pelos radares estadunidense, após a eclosão da “onda rosa”, a ascensão ao poder de governos de esquerda ou centro-esquerda pelo viés democrático, no início do século 21, com discurso anti-imperialista alinhado às potenciais socialistas, onde estão Hugo Chávez, na Venezuela; Lula, no Brasil; Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Corrêa, no Equador, passou a tirar o sono da Casa Branca.

A conta uma hora ia chegar e acabou de bater à porta!

É bom lembrar que as análises se perdem no tempo com a velocidade de um míssil desgovernado, mas nem tudo é petróleo, para espanto dos analistas mais afoitos, no tabuleiro das relações internacionais, apesar de não ser uma variável desconsiderável, até porque com a Venezuela em mãos, os EUA passam a ter maior poder sobre o preço do produto no mercado internacional o que pode sufocar a Rússia, assunto para a próxima conversa.

Por enquanto, o que temos é que com a invasão militarizada da Venezuela e captura do casal Maduro, Donald Trump quebra o direito internacional, enterra a ONU de vez, muda a pauta da enfadonha agenda global, diminui a influência da China e da Rússia na região e ainda faz caixa, em um movimento circular ousado que – não se assustem – passa pela Colômbia para, se preciso for, chegar ao Brasil depois.

*O autor é professor de gestão pública, mestrando em relações internacionais.

Foto: PDVSA/divulgação