Victor Hugo no consultório

Detalhe de A liberdade guiando o povo (Delacroix). Reprodução.

 

*Wilson Nogueira

 

Ouvi, dia desses, na sala de espera de um consultório odontológico, uma conversa funesta. No mínimo funesta.

Disse o atendente à sua interlocutora, uma senhora dos seus quarenta anos:

–  Até há pouco tempo, quando a economia ia bem, a maioria dos nossos clientes vinha aqui, primeiramente, pedir um orçamento para dar um tapa no visual.

Groso modo, essa gíria, significa arrumar o sorriso, fazer uma limpeza bucal ou uma aplicação de flúor.

E continuou:

– E geralmente elas contratavam os serviços que almejavam. Agora! As pessoas chegam aqui, já meio acabrunhadas, e perguntam:

– Quanto custa arrancar um dente?

– Credo! Isso é triste – reagiu uma adolescente, fazendo uma cara de quem não acreditou no que ouviu.

Nesse instante, vem do interior do consultório um urro abafado, como se alguém quisesse esconder uma dor ainda maior.

– O que é isso gente? – perguntou, assustada, a adolescente.

O moço do atendimento explicou-lhe:

– É um dente que acabou de ser arrancado!

E ainda se arrancam dentes nos dias de hoje? Perguntei, cá com os meus demônios.

Evidentemente que sim. Porém, este já seria o último procedimento de um dentista que, antes, procurou, por meio de toda tecnologia disponível, evitar que uma pessoa perca um dente sequer.

É o que fazem os dentistas desse consultório obviamente.

O problema é que, em uma economia que concentra riquezas, as populações pobres e remediadas são as que mais sofrem. Primeiro, porque lhes faltam o atendimento preventivo – o tapa no visual, como bem definiu o nosso atendente, uma expressão bem colocada de alguém que quer se ver com o autoestima elevado.

O diagnóstico do atendente, resultado de observação do seu dia a dia, é uma obviedade: quem não pode pagar um tapa no visual passa por um processo de degradação da saúde que, mais cedo ou mais tarde, levará à perda de um dente, um rim, do fígado, do baço e até da vida.

Isso porque, em termos de saúde, o adoecimento do coração, do rim, do fígado ou do dente não é isolado. Quando um órgão adoece todo o sistema vida é afetado, ou seja: o corpo todo adoece.

Inclusive a alma.

Aliás, essa apodrece primeiro e a sua manifestação é a tristeza, a depressão, o olhar pálido e distante, o constrangimento de se tornar dependente de outros.

Esse é a condição propícia à manifestação da injustiça, da falta de solidariedade, da intolerância, do ódio, da carência de humanidade. Toda essa degenerescência pode ser arrumada em uma única palavra: insensibilidade.

As crises – e aqui me refiro às crises do capitalismo, porque é esse o modo de produção vigente nesta sociedade – arrastam sempre a agudização da miséria humana.

Nesse aspecto, penso que Victor Hugo, autor do clássico Os miseráveis, de 1862, está entre aquele (a)s que viajaram pelas profundezas da alma humana com a destreza de quem articula ficção e realidade como faces da mesma moeda.

A miséria era atual no século 19, está atualíssima neste século 21.

Assim, essa conversa me conduziu, imediatamente, aos episódios em que Fantine vende os cabelos, e depois os dentes, para aplacar o sofrimento da filha Cossete, a Cotovia, hóspede da família Thénardier.

Os Thénardier simbolizam a ganância e a falta de escrúpulos principalmente. Além de explorarem a Cotovia até as vísceras, vivem a inventar situações que colocam Fantine, longe da filha, em desespero total.

“À noite, [Fantine] foi ao barbeiro, que morava na esquina da sua rua, e aí desenrolou a sua admirável cabeleira loura que lhe chegava até os rins.

– Que lindos cabelos! – Exclamou o barbeiro.

– Quanto daria por eles? – Indagou Fantine.

– Dez francos.

– Pode cortá-los.

Comprou uma saia de lã e mandou para a sua filinha.”

Os Thénardier ficaram furiosos, uma vez que o que queriam era dinheiro ao vivo e não agasalho para frio.

[…]

Em seguida, Fantine recebeu outra carta dos Thénerdier, desta vez lhe informando que Cossete havia contraído uma perigosa doença, a qual a colocara à beira da morte. Queriam mais dinheiro.

“Depois [Marguerite, amiga de Fantine] olhou para Fantine, que lhe mostrava a cabeça quase sem cabelos. De um dia para o outro envelhecera mais de dez anos.

– Jesus! – disse Marguerite –, que tem você, Fantine?

– Nada! – respondeu. Pelo contrário: minha filinha não vai morrer dessa terrível doença por falta de remédio. Estou muito contente.

Enquanto falava mostrava a boa velha os dois napoleões que brilhavam sobre a mesa.

–Jesus! – disse Marguerite – mas isso é uma fortuna. Onde arranjou esses luíses de ouro?

– Ganhei-os – respondeu Fantine.

E pôs-se a sorrir. A vela iluminava-lhe o rosto. Era um sorriso ensanguentado. Uma saliva avermelhada sujava-lhe os cantos dos lábios, na boca aparecia um buraco escuro.

Os dois dentes superiores haviam sido arrancados.”

Leio e releio Victor Hugo há algum tempo. E é sempre assim: sua arte às vezes me faz pensar a respeito de problemas monumentais, mas, é mais frequente que me leve a coisas do cotidiano, como à essa conversa de consultório odontológico, onde senti Victor Hugo presente e vigilante.

 

*O autor é jornalista e escritor