1º de maio: trabalho, ideologia e escolha

O artigo defende a valorização do trabalho e a redução da jornada como caminhos essenciais para superar a desigualdade estrutural.

Publicado em: 01/05/2026 às 10:14 | Atualizado em: 01/05/2026 às 10:22

Por Plínio César Coelho*

Neste Dia do Trabalho, não há espaço para neutralidade. A data nasce de lutas concretas, como a Revolta de Haymarket, e reafirma um princípio elementar: o trabalho deve servir à dignidade humana.

Desde Adam Smith, em “A riqueza das nações”, sabemos que a riqueza das nações deriva do trabalho. Portanto, a forma como tratamos o trabalhador define o modelo de economia que defendemos.

No Brasil atual, o debate é claro. De um lado, defende-se a redução da jornada para 40 horas semanais (escala 5 por 2), sem redução salarial, com base em um argumento econômico consistente: produtividade não é função do tempo bruto, mas da qualidade do trabalho.

 Jornadas excessivas reduzem eficiência e ampliam custos sociais.

De outro lado, setores da direita resistem a essa mudança, alegando custos e competitividade — chegando, em alguns casos, a admitir redução salarial.

Em essência, trata-se de decidir quem paga o ajuste: o sistema ou o trabalhador.

Essa clivagem se repete em outras agendas: salário mínimo com ou sem ganho real vinculado ao produto interno bruto, maior progressividade tributária ou restrição fiscal, fortalecimento do Sistema Único de Saúde ou ampliação da lógica de mercado, manutenção ou não de ganhos reais para aposentados.

Há, porém, um ponto estrutural que precisa ser explicitado. A renda nacional é composta, fundamentalmente, por duas grandes parcelas: a renda do capital — lucros, juros e dividendos — e a renda do trabalho — salários.

Quando a participação relativa do capital cresce de forma persistente em relação ao trabalho, o resultado inevitável é o aumento da desigualdade.

E é exatamente isso que vem ocorrendo. Como demonstra Thomas Piketty em “O capital no século XXI”, desde o final dos anos 70 há uma tendência de concentração de renda e riqueza em favor do capital.

Os dados recentes reforçam essa leitura: os dez indivíduos mais ricos do mundo concentram cerca de US$ 2,5 trilhões — valor superior ao produto interno bruto do Brasil, um país com mais de 200 milhões de habitantes.

Mesmo quando há melhora conjuntural, a estrutura permanece desigual.

O Brasil registrou, por exemplo, índice de Gini em torno de 0,506 em 2024 — o menor da série recente —, mas ainda em um patamar elevado em termos internacionais, evidenciando forte concentração de renda .

Em outras palavras, há avanços pontuais, mas a desigualdade estrutural persiste.

Esse quadro revela um desequilíbrio profundo: o crescimento econômico tem beneficiado desproporcionalmente o capital, enquanto o trabalho perde participação relativa na renda.

Diante disso, a conclusão é inevitável. A valorização do trabalho — por meio da redução da jornada sem redução salarial, do aumento real da renda e da proteção social — não é apenas uma escolha ideológica. É uma resposta necessária a um modelo que se tornou, do ponto de vista econômico e social, progressivamente insustentável.

A escolha é clara: ou reorganizamos a economia em torno do trabalho, ou aceitaremos a perpetuação de uma desigualdade que já ultrapassou todos os limites razoáveis.

Foto: Imagem criada por IA