Abrem-se os portais do encantamento

Para a autora, álbum 2026 do Garantido transforma rituais e mitos indígenas em toadas que celebram Parintins como terra encantada

Garantido é o campeão 

Por Dassuem Nogueira*

 

Publicado em: 06/04/2026 às 15:53 | Atualizado em: 06/04/2026 às 15:53

Desde o dia 21 de março, boi bumbá Garantido lançou diariamente uma toada do álbum 2026, Parintins: portal do encantamento.

No dia 4 de abril, fez o lançamento oficial com uma grande festa na Cidade Garantido, na ilha Tupinambarana.

O evento contou com a participação de todos os itens oficiais e a apresentação de Raíra Lins como nova sinhazinha da associação folclórica.

O novo álbum está heterogêneo em estilos dentro do gênero e com arranjos diversificados. Apresenta-se bem alinhado ao tema, sem perder-se em ritmo ou tornar-se monótono, risco que se corre ao desenvolver um tema específico ou apegar-se à argumentação acadêmica.

Portal do encantamento

A toada tema, Parintins: portal do encantamento (Enéas Dias, João Kennedy e Gabriel Victor) traz a tese defendida pelo Garantido em 2026: a de que Parintins é uma terra encantada.

Todas as toadas de ritual e lenda amazônica se referem a povos indígenas com territórios localizados próximos ao município: os Hyxkariana e a tradição ceramista Konduri (ambos da região dos rios Trombetas e Nhamundá) e os Parintintin (alto rio Madeira).

Nota: Embora o nome da cidade seja uma homenagem ao povo Parintintin, não há evidências de que esse povo tenha habitado a região em algum momento. Porém, a região de Parintins é um importante interflúvio entre os rios Tapajós e Madeira, lugar de batalhas e disputas entre povos desses rios.

Rituais

As toadas que abordam as ontologias indígenas fazem referência a diferentes tipos de passagem, que a visão do Garantido assume como sendo feitas por portais.

Sonho de Ipají (Helen Veras, Sebrin e Pedro Vilaça) fala do rito de iniciação sacerdotal dos Parintintin, quando o iniciado deixa de ser um homem comum e passa a ser um pajé.

A toada Travessia das cinzas (Maurinho Magalhães, Marcos Lima e André Moraes) fala da passagem da vida para a morte que, na tradição ceramista Konduri, seria a ida para outra dimensão da vida. Assim, não seria morte, mas continuação.

Nota: Konduri ou Konuri é um termo que aparece na documentação histórica do século XVI ao XVII relativo aos povos da região entre Nhamundá e Óbidos, especialmente na região de Oriximiná. O termo Konuri aparece ora como uma mulher, ora como um povo, ora como aldeia, associada às mulheres guerreiras, Icamiabas ou Amazonas. No século XX, a arqueologia, por associação, relaciona o termo Konduri ao estilo cerâmico encontrado na região. No entanto, não corresponde a um povo ou cultura. Na poesia dos compositores, a “nação ceramista” ganha uma narrativa cultural.

Ritual Hyxkariana

Toada Ritual Hyxkariana (Demetrios Hitos, Geandro Matos e Vanilson Oliveira) fala da cura, passagem da doença para a saúde, mediada pelo pajé, que tira a doença do corpo pela fumaça e pelo canto. E que, para tanto, precisa passar da forma do corpo de gente humana para a de gente macaco guariba.

Nos versos, a toada utiliza termos centrais em língua indígena, provavelmente, a hyxkariana, o que dificulta a compreensão de seu conteúdo.

Porém, a belíssima sonoridade do idioma indígena é impactante, com destaque para o trecho que parece ser uma referência direta de um canto de cura hyxkariana.

A toada nos faz pensar: como seria uma toada feita toda em língua originária, em seus próprios termos?

A tradução sempre faz com que algum sentido se perca no caminho. As toadas de ritual costumam falhar na tradução, comumente, retratando a busca do pajé pela cura como uma batalha entre o bem e o mal, compreensível para a cultura cristã, mas diferente do seu sentido original. A toada Ritual Hyxkariana escapa a essa fórmula.

Passagem de mundos

As toadas que, possivelmente, defenderão o item 17 Lenda Amazônica também tomam como referências as ontologias indígenas que falam de passagens, não de estados, mas de mundos.

A toada Kamara (Geandro Matos, Jorge Renato e Paulo Lindoso) fala da história de criação do mundo do povo Kamarayana, autodenominação dos Hyxkariana. Há a passagem do nada, quando o mundo não existia, para o mundo como o conhecemos, o que é mediado pela onça-mãe ancestral, Kamara.

Outra passagem é a da origem da vida, segundo o povo Parintintin, que aparece na toada Pindova’umi’ga (Helen Veras, Sebrin e Pedro Vilaça). A toada conta quando os Yva’gan’ga, os primeiros kagawiva, deixam o mundo no céu e vem para a terra – os Kagawyva são um conjunto de povos do tronco Tupi, dos quais os Parintintin fazem parte.

A toada Templo do Sol (Bruno Bulcão, Jaércio Curuatá e Yuri Gomes) fala das histórias gravadas nas peças de estilo konduri, que aqui aparece associada às mulheres guerreiras, Icamiabas ou Amazonas.

Lenda amazônica?

As toadas de lenda retratam versões de criação do mundo segundo ontologias indígenas, mas vai de encontro ao termo “lenda” que, historicamente, as coloca como ficções.

O que reforça que a designação do item está ultrapassada, especialmente quando confrontada com as ontologias indígenas, que têm sido colocadas para concorrer ao item, em ambos os bois-bumbás. Elas vêm substituindo as histórias caboclas que, erroneamente, não são interpretadas como ontologias.

Ayra ibi cunhã

Um destaque do álbum 2026 é toada Ayra ibi cunhã (Paulinho Du Sagrado, Cíntia Mesquita e Gabriel Stone) é uma homenagem a Isabelle Nogueira, cunhã poranga que projetou a toada de Du Sagrado, Isa- a- Bela (2022), em nível nacional.

A toada era tocada durante o reality show Big Brother Brasil 24, no qual Isabelle ganhou o 3º lugar. E virou a trilha sonora de sua participação.

O verso de abertura “a tua voz na selva se agiganta e fala sobre nós” é uma alusão ao papel de embaixadora do festival de Parintins, que Isabelle Nogueira vem desempenhando desde sua participação no BBB24.

*A autora é antropóloga.

Foto: divulgação