Quilombo da Baixa oferece curso preparatório para aquilombar a universidade

A cerimônia aconteceu no Mercado Lindolfo Monteverde, dois dias depois da Alvorada do boi Garantido, no dia 1º de maio.

Publicado em: 05/05/2026 às 19:43 | Atualizado em: 05/05/2026 às 19:43

Inaugurou nesse domingo, 3/05, o cursinho popular para ingresso na universidade promovido por meio do quilombo afro-indígena da Baixa da Xanda.

A cerimônia aconteceu no Mercado Lindolfo Monteverde, dois dias depois de uma das maiores tradições da comunidade, a Alvorada do boi Garantido, no dia 1º de maio.

Em tempos de educação básica escassa, “os da Baixa” aproveitaram oportunidades para alfabetizar os seus. Hoje, após a chegada das universidades públicas em Parintins, o recém-reconhecido Quilombo da Baixa da Xanda pretende aquilombar o ensino superior.

A Baixa, lugar que faz a alegria de tantos apaixonados pelo boi Garantido, quer garantir também a esperança de vida melhor aos estudantes do cursinho popular.

Mobral

Em 1967, o governo militar criou o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), que durou até 1985, com o fim do regime. O objetivo principal era combater o analfabetismo entre jovens e adultos no Brasil. Foi nesse programa que minha avó, Benedita, parintinense, aprendeu a ler e escrever, quando já era mãe de família e trabalhadora da Companhia Fabriljuta.

Guardo como tesouro um dos poucos registros de sua letra em uma fotografia em preto e branco, na qual minha avó está bem linda, jovem com sorriso largo e uma papoula no cabelo. No verso, está escrito “Com carinho, para vovó Felicidade”. Sua avó-mãe tinha esse nome. E a mãe da Felicidade se chamava Esperança.

A Felicidade e a Esperança, mulheres da Amazônia do século XIX, não sabiam ler nem escrever. Benedita lia, mas não interpretava, e escrevia apenas o nome, desenhando devagar uma letra grande e redonda. Um dos momentos mais gostosos dos meus dias de adolescente, em um mundo sem internet na

casa das pessoas comuns, era ler para ela as revistas das novelas e vê-la vibrar ou se chatear com o resumo dos capítulos que veríamos no decorrer da semana.

Diversidade

Meu pai, Wilson Nogueira, parintinense, também veio de mulheres que mal sabiam assinar o próprio nome. Vô Adolfo, seu pai, sabia uma pouco mais. Mas a escola primária não era perspectiva de educação dos filhos para meus avós paternos.

No lago do Xibuí, próximo à cidade de Parintins, os filhos aprenderiam o necessário para viver ali: pescar, caçar, navegar, cuidar da roça, dos animais, da diversidade e das adversidades.

O barracão

Meu pai, o filho mais velho de oito irmãos, aprendeu a ler no Barracão do Garantido, quando a família se estabeleceu na cidade. Na época, década de 1960, o boi bumbá Garantido já existia e seu barracão era dormida, paragem e festejo, entre esses, os de boi-bumbá.

O Normal

Antônia Alexandrina, filha de Lindolfo, fundador do Garantido, se formou como normalista no Colégio de Nossa Senhora do Carmo. Naquela época, a formação máxima das professoras do ensino básico era o Segundo Grau Normalista.

A universidade era algo inimaginável para quem vivia no interior do estado. Na realidade, para quem não vinha de família abastada, de modo geral. E toda e qualquer pessoa formada com curso superior era chamada de doutor/a.

Escolas Reunidas

Até a escola básica era de difícil acesso. A partir de 1967, foram criadas as Escolas Reunidas Rafael Faraco, um formato de organização escolar que reunia várias classes em uma. O formato foi inserido na política de expansão do ensino primário para ampliar, rapidamente, o acesso à alfabetização e às séries iniciais em áreas com pouca infraestrutura educacional, como Parintins.

Rafael Faraco era um político amazonense ligado à Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação do regime militar. Na época, era deputado federal. A nomeação personalista refletia uma prática comum, hoje proibida, de associar instituições e programas públicos a lideranças governistas. Meu pai lembra que todo material escolar tinha o nome do deputado.

Universidade

Meu pai se alfabetizou em uma das escolas reunidas Rafael Faraco que funcionou no Barracão do Garantido, ensinado por Antônia Alexandrina Monteverde, por volta dos dez anos de idade. Só após essa passagem, ele adentrou a escola regular. E não conseguiu concluir o segundo grau. O que só ocorreu aos 36 anos de idade, após ser aprovado no exame supletivo, que fez às pressas para não perder a matrícula na universidade. Meu pai já tinha família e uma carreira no jornalismo. Mas a universidade lhe abriu outras possibilidades.

Hoje pode ser chamado de doutor porque concluiu o doutorado aos 55 anos, em 2013. E foi um dos primeiros a ter esse título entre os da Baixa, egresso das escolas reunidas do Barracão do Garantido.

Esperança

Na década de 1960, saber ler e escrever era um privilégio que os pobres não tinham. Mas, desde essa época, a Baixa da Xanda, coletividade que ainda não se entendia pela categoria quilombo, esforçava-se para alfabetizar os seus.

Minha vó Bené e meu pai Wilson aprenderam, pelo Mobral e pelas escolas reunidas, respectivamente, o mínimo para transitar sem enganos em lugares onde saber pescar, roçar e selecionar juta, não eram suficientes. Era o mínimo para se ter esperança.

Felicidade

A Baixa é ninho de grandes poetas, entre eles o criador do Garantido, seu Lindolfo, que adquiriu o título de Mestre por suas altas habilidades em poesia.

Inteligência com as palavras nunca faltou aos da Baixa. Tampouco lhes faltou felicidade. Mas foi o acesso à educação formal que permitiu aos seus filhos melhores condições para serem, seguramente, felizes. E todos, até recentemente, foram buscar seus diplomas longe do ninho.

Bendita

Minha mãe, Maria Rosário, foi a única entre os seis filhos de Benedita a cursar o ensino superior, quando já era mãe de família, aos 27 anos. O que só conseguiu na sexta tentativa, após ter acesso a um cursinho popular do recém-criado Partido dos Trabalhadores (PT) no bairro vizinho ao nosso, em Manaus. Era o ano de 1989.

Interiorização

Em 1989 também foi o ano em que a bendita universidade pública chegou em Parintins, quando a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) passou a oferecer cursos modulados. Em 2007, efetivou-se com a implantação definitiva do Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia (Icsez).

Pouco tempo depois, em 2010, foi inaugurado o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), com ensino médio profissionalizante. Os atos fizeram parte da política nacional de interiorização da educação técnica e superior do segundo governo Lula.

A Universidade do Estado do Amazonas (UEA) iniciou suas atividades acadêmicas em Parintins em 2003, por meio do Centro de Estudos Superiores de Parintins (Cesp/UEA), unidade responsável pela interiorização do ensino superior no Baixo Amazonas.

Aquilombar

Mesmo assim, a universidade ainda não é acessível a todos na Baixa. Pretendendo corrigir isso, o Quilombo abraçou a oportunidade de ingressar na rede nacional de cursinhos populares, o CPop, organizado pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), do Ministério da Educação (MEC).

As aulas ocorrerão no antigo prédio da Ufam, na avenida Paraíba. Porém, há planos de que se estabeleça, definitivamente, no território da Baixa até o final do ano, segundo informou ao BNC Amazonas o coordenador do cursinho, Dé Monteverde, professor, neto de Mestre Lindolfo e sobrinho da professora Antônia Alexandrina.

A princípio, quarenta jovens da comunidade serão contemplados com uma bolsa auxílio de 200 reais, além de curso estruturado para o Enem e material escolar onde consta adesivado o nome “Cursinho Popular – Aquilombando a universidade”.

Foto: Divulgação