A perplexidade continua

Para o autor, a perplexidade é sinal de vitalidade democrática, mas exige reação às elites e à ameaça de usurpação de poderes

Lula vê memória do 8 de Janeiro importante para democracia

Por Walmir de Albuquerque Barbosa*

Publicado em: 05/12/2025 às 10:04 | Atualizado em: 05/12/2025 às 10:04

Começamos o ano falando da perplexidade dos não perplexos, que seriam aqueles que, vivendo somente as coisas do cotidiano esquecem da reflexão e, de repente, veem-se obrigados a abrir os olhos e deparar-se com um mundo que os surpreende ou os assombra.

Uma das funções do jornalismo é despertar essas perplexidades, quando feito dentro dos conformes.

A perplexidade continua como um bom sinal, sinal de que teremos um amanhã, que vencemos dificuldades, embora não tenhamos resolvido a totalidade dos problemas, é fato, mas nada se faz da noite para o dia.

O ano foi dos “economistas malvados”, parte dos profissionais que se dedicam ao estudo da economia e que juraram, assim como os demais e todos nós de outras profissões, trabalhar pelo bem da humanidade, no ato de formatura.

São, apenas, aqueles que foram se degenerando pelas circunstâncias da vida, influenciados pelos senhores a quem fazem opção por servir ou, ainda, coagidos pela necessidade do emprego e decidem fazer o contrário.

Deliberadamente, eles infernizaram nossas expectativas, alimentaram ilusões na cabeça dos não perplexos e causaram uma imensa dor destruindo planos, contribuindo para a depressão e, em alguns momentos, como os profetas escatológicos do Velho Testamento, pregaram a conversão antes do fim do mundo, caso não houvesse “corte de gastos com os mais pobres”.

E chegamos até aqui:

– erraram na projeção do PIB, que seria negativo e virou “pibão” apesar das circunstâncias;

– a renda média dos brasileiros passou dos mil e quinhentos reais para os três mil e quatrocentos reais;

– a menor taxa de desemprego já vista, desde que se começou a medir desemprego no Brasil;

– as reservas cambiais continuam intatas como lastro para os negócios;

– a inflação se aproxima da meta;

– o país deixou o mapa da fome para trás;

– a “Faria Lima”, de barriga cheia, aplaude a bolsa batendo os 160 mil pontos e dólar estabilizado, mesmo com os soluços do mercado de moedas;

– a indústria cresceu, apesar da sugestão dos economistas para que entrasse em recessão e desempregasse o povo e os industriais aplicassem suas “mufumbas de mais valia” na “ciranda financeira”;

– a maior safra de grãos e alimentos diversos;

– e tudo seria melhor sem a alta Selic do Banco Central, essa entidade sequestrada pelo “mercado” sob a farsa da autonomia;

– o povo nos shoppings, fazendo aquele crediário de 12 vezes no cartão como quem acredita no amanhã;

– a COP30 aconteceu, houve um princípio de incêndio e a ONU reclamou de segurança porque sua cabeça continua em Dubai;

– e a tal insegurança jurídica, tão alardeada pelos mercadólogos, que afastaria os investidores com medo dos superpoderes do STF se amainou e quem tinha que ser condenado e preso já está, quem precisava ser encontrado pela polícia, se não o foi já se sabe o paradeiro;

– e por fim, uma astuciosa caravana da Polícia Federal rompeu as muralhas da Faria Lima e passou o rodo nas fintechs suspeitas de lavar dinheiro para o PCC;

– e, depois de tanta indecisão, o Banco Central decretou a falência do banco Master, que mais parecia uma holding da malandragem combinada entre investidores gulosos, políticos corruptos e lobistas competentes;

– as sobretaxas de Trump caíram.

Com a reputação em baixa, economistas que passaram pelos órgão financeiros da República em altos cargos e fazem hoje a mercância gerencial dos Fundos da Alta Burguesia Rentista (aquela que diz que manda e manda mesmo escondida no anonimato ou no sobrenome se ninguém a desafia) atribuem os sucessos às variáveis externas ao governo e, vergonhosamente, agora fazem previsões catastróficas para 2027.

O grande imbróglio a ser resolvido está, portanto, nas mãos do povo, mas nos deixa perplexos: as tentativas de usurpação de poderes, hoje, tendo como epicentro parte dos nossos representantes no Congresso Nacional dando abrigo a tentativas de golpe. 

Chamar a polícia não se pode; insuflar o STF com insinuações que afrontem a independência dos poderes da República não é certo; pregar o confronto entre o executivo e legislativo compromete as políticas públicas e anima uma briga de malucos.

O que fazer?

Resta-nos o Estado Democrático de Direito e a democracia: pressionar com todos os meios legais os indignos que fraudarem o sagrado dever da representação e usarmos a arma do voto, que ainda é nossa, na hora oportuna.

E isso não é pouco!

*O autor é jornalista profissional.

Foto: divulgação