O poder das terras raras coloca o Brasil e o Amazonas no centro do jogo geopolítico
Reservas de terras raras no Amazonas projetam o Brasil como protagonista global, entre desafios logísticos, ambientais e estratégicos.
Por Fabiano Bô*
Publicado em: 20/09/2025 às 11:04 | Atualizado em: 20/09/2025 às 11:07
O mundo atravessa uma nova era de disputas geopolíticas em que os recursos minerais estratégicos, especialmente as terras raras, assumem protagonismo. Esses elementos são essenciais para tecnologias modernas, incluindo veículos elétricos, turbinas eólicas, discos rígidos, monitores, LEDs e até sistemas de defesa. A concentração da produção mundial nas mãos da China, responsável por cerca de 60% da oferta global, evidencia a vulnerabilidade das cadeias de suprimento e a necessidade de diversificação. Além do domínio produtivo, a excessiva burocracia e a imprevisibilidade nas regras de exportação chinesas tornam o país um formidável ator no jogo econômico e geopolítico.
O Brasil, que possui uma das maiores reservas do mundo, surge como peça-chave nesse cenário, com destaque especial para o Amazonas. A região reúne condições naturais e estratégicas para despontar como potência na exploração de terras raras. Nesse sentido, é fundamental compreender a importância desse recurso para o equilíbrio das relações internacionais e para o fortalecimento da soberania nacional, reduzindo a dependência externa e ampliando a capacidade de inserção competitiva do país nos circuitos globais de tecnologia crítica e de autonomia em defesa e segurança.
De acordo com a SMMG (Secretaria Nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral) e o SGB (Serviço Geológico do Brasil), o Brasil possui cerca de 23% das reservas mundiais de terras raras, estimadas em 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras (TREO). Apesar disso, o Brasil produz apenas cerca de 20 toneladas em 2024, menos de 1% da produção mundial, que ultrapassa aproximadamente 390 mil toneladas.
Goiás e Minas Gerais consolidam-se como referências na exploração de terras raras no Brasil. Em Goiás, a mineração em Serra Verde, em Minaçu, já iniciou a produção comercial desde 2024. Além desses minérios, estudos indicam a presença de aproximadamente 2 milhões de toneladas de elementos, que concentram elementos como lantânio, cério, neodímio, samário e gadolínio. Entretanto, o Brasil ainda está sujeito a entraves ligados às questões ambientais e sociais.
O Amazonas desponta como fronteira estratégica nesse tabuleiro global. Estudos recentes indicam a presença de jazidas promissoras em municípios como Presidente Figueiredo, São Gabriel da Cachoeira e Apuí. Na região de Pitinga, há um projeto que associa o aproveitamento do minério de estanho e nióbio à extração de terras raras, em andamento pela Mineração Taboca.
Outro exemplo relevante é a atuação da mineradora BBX do Brasil, com projeto de exploração em Apuí já assentado na ANM (Agência Nacional de Mineração). Estima-se nesse relatório que a jazida possua mais de 1 bilhão de toneladas de minério, suficiente para garantir mais de duas décadas de extração, com geração consistente de empregos e receitas de impostos para o município.
O depósito de Pitinga, localizado no município de Presidente Figueiredo, é tradicionalmente conhecido pela exploração de estanho, tântalo e nióbio. Além desses minérios, estudos indicam a presença de aproximadamente 2 milhões de toneladas de terras raras, que concentram elementos como lantânio, cério, neodímio, samário e gadolínio. Entre as aplicações desses materiais estão as indústrias de energia renovável, defesa, saúde e mobilidade elétrica, setores cruciais para a transição energética e o enfrentamento das mudanças climáticas globais.
O desafio brasileiro está em superar obstáculos relacionados à infraestrutura logística, à capacitação técnica e ao marco regulatório. Para transformar essa riqueza mineral em vantagem estratégica, é imperativo um planejamento integrado que aborde desde a extração sustentável até a geração de valor agregado por meio da industrialização, fomentando cadeias produtivas de alta tecnologia e reduzindo a dependência externa.
Nesse contexto, a atuação da mineradora BBX em Apuí torna-se emblemática. A empresa anunciou recentemente estudos que apontam um potencial significativo para exploração sustentável, capaz de gerar milhares de empregos diretos e indiretos, além de fomentar o desenvolvimento local. A proposta é que parte do trabalho seja realizado de forma ambientalmente mais eficiente. O estudo reforça a importância de desenvolver tecnologias de exploração sustentável e de estabelecer parcerias internacionais logísticas com foco em fornecedores confiáveis.
A presença do Brasil no mercado global de terras raras demanda investimentos rigorosos em pesquisa e inovação, além de estratégias de atração de capital para viabilizar projetos de exploração. É necessário também minimizar os impactos socioambientais, promovendo um modelo que respeite a legislação ambiental e os direitos das populações locais, seus modos de vida, suas culturas e sua biodiversidade.
O domínio desses recursos representa um ativo estratégico para o Brasil, capaz de alavancar sua inserção no cenário internacional como protagonista de uma nova ordem econômica verde e tecnológica. O Amazonas, pela dimensão de suas reservas e por sua posição geopolítica, pode se tornar centro de gravidade dessa transformação.
Ao integrar segurança, soberania e desenvolvimento sustentável, a exploração responsável das terras raras colocará o Brasil e o Amazonas no centro do tabuleiro geopolítico mundial, ampliando sua autonomia estratégica e garantindo um futuro mais sustentável, adequado às necessidades da transição energética e às políticas de defesa em verdadeiro valor estratégico.
*É coronel da Polícia Militar, especialista em Política e Estratégia (ADESG) e secretário de Estado Chefe da Casa Militar do Amazonas.
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Foto: divulgação
