Operação Boiúna: entre combate ao crime, política mineral e violação de direitos
No centro desse debate, é fundamental reconhecer a legitimidade do combate ao garimpo ilegal, mas também de investigar com rigor possíveis abusos
Por Plínio César Coelho
Publicado em: 27/09/2025 às 09:03 | Atualizado em: 27/09/2025 às 09:35
A recente diligência da Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado aos municípios de Humaitá e Manicoré, no Amazonas, para investigar supostos excessos da operação Boiúna, da Polícia Federal, coloca em evidência um dos dilemas mais complexos enfrentados na região.
O debate, porém, vai além da ação policial e envolve a necessidade de uma política mineral de Estado e o combate a graves violações trabalhistas.
É fundamental reconhecer a legitimidade do combate ao garimpo ilegal, uma atividade predatória orquestrada por organizações criminosas, sem ignorar a obrigação de apurar abusos e enfrentar as causas profundas do problema.
Em primeiro plano, a operação Boiúna é uma resposta direta a uma rede criminosa de proporções alarmantes.
O garimpo ilegal no rio Madeira não se trata de uma atividade de subsistência, mas de uma empresa ilegal sofisticada que movimenta milhões de reais, destrói ecossistemas fluviais e intoxica comunidades ribeirinhas através do mercúrio.
A ação da Polícia Federal cumpriu seu papel constitucional de defender o meio ambiente e a saúde pública de danos catastróficos.
Além do dano ambiental, é imperativo destacar a chaga social representada pelas condições de trabalho nesses garimpos.
A atividade ilegal frequentemente se sustenta sobre a exploração de mão de obra em situação análoga à escravidão, conforme definido pelo artigo 149 do Código Penal Brasileiro.
Trabalhadores são aliciados com falsas promessas, submetidos a jornadas exaustivas, condições degradantes, servidão por dívida e total falta de segurança.
Nesse contexto, a atuação do Ministério Público do Trabalho e da Justiça do Trabalho é essencial não apenas para responsabilizar os criminosos, mas para resgatar e reinserir essas vítimas.
A verificação dessas violações trabalhistas deve ser um eixo central de qualquer investigação sobre o garimpo ilegal, revelando a face humana dessa exploração criminosa.
Estado ausente
No entanto, operações policiais e ações trabalhistas tratam, em grande parte, dos sintomas. A raiz da questão está na vacuidade de uma política mineral soberana e sustentável para a Amazônia.
A ausência do Estado como regulador e agente econômico abre espaço para que o crime organizado se estabeleça como a única alternativa para uma parcela da população.
Para enfrentar isso de forma estrutural, é imperativo que o Estado brasileiro crie um marco regulatório robusto e avance na discussão sobre a criação de uma empresa estatal para a exploração mineral na região.
Tal medida teria o objetivo de centralizar e controlar a atividade, garantindo que os recursos sejam explorados com rigor técnico, responsabilidade ambiental e respeito à legislação trabalhista, drenando o financiamento das organizações criminosas e oferecendo uma alternativa lícita e digna de renda.
Paralelamente, as denúncias do conselho tutelar sobre violação de direitos durante a operação policial exigem apuração rigorosa, que deve considerar a possibilidade de manipulação por parte do crime organizado para deslegitimar a ação do Estado.
Em conclusão, a operação Boiúna evidencia uma teia de problemas interligados: o crime ambiental, a exploração trabalhista e a falta de alternativas econômicas legais. A resposta de longo prazo, portanto, deve ser igualmente integrada.
É necessário um esforço conjunto que una a repressão qualificada das polícias, a rigorosa fiscalização da Justiça do Trabalho e, sobretudo, a construção de uma política de Estado para a questão mineral na Amazônia.
Somente com a presença efetiva do Estado, oferecendo uma economia legal que gere emprego digno e preserve o meio ambiente, será possível desmontar de vez o poder das organizações criminosas e garantir um futuro sustentável para a região e sua população.
O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Foto: divulgação/PF
